18 de abril de 2007

O Evangelho Faz-de-Conta e a Encarnação


Recebi este texto por e-mail, apesar de muito grande vale a leitura.

O Evangelho Faz-de-Conta e a Encarnação

O mundo do faz-de-conta é, por natureza, sempre um mundo fantástico. Nele os objetos e as personagens são imaginadas em condições e circunstâncias que estão sempre além da realidade, fantasiosas, incríveis, criadas a partir da fertilidade da imaginação de quem o cria ou propaga. E isto é bom, às vezes, até ótimo, principalmente na didática do ensino que vela o sentido da história no início entre cores e formas deslumbrantes para no final encerrar uma aplicação pertinente às necessidades do cotidiano das relações interpessoais, ou turbinar o aprendizado pessoal etc., e assim, a história da Chapeuzinho Vermelho perpetua-se sempre em perfeita atualidade com os tempos, ainda que distintos. Também interessa ao mundo dos amantes apaixonados, que viajam em seus preparativos orgásmicos pelos mistérios enfumaçados de suas frases e sonhos românticos, trazendo sabor e sentido ao amor que os aproxima, o mesmo amor que alimenta seus enredos eróticos, perfazendo sempre um círculo virtuoso que fortalece os laços conjugais, e quem não os imagina nem experimenta, sofre com a infelicidade de comer um bolo de chocolate com gosto de pó royal.

Mas o mundo do faz-de-conta não pode abranger as ações. As ações são sempre reais, elas são deveras objetivas e imprescindivelmente concretas. Elas se estabelecem no plano cartesiano em que para toda ação (ou falta dela) haverá uma reação, que em alguns casos se desencadeia num emaranhado de sub-reações, complicando exponencialmente a tarefa de quem procura entender a(s) causa(s) do sintoma. As ações são sempre substanciais, elas tem corpo, endereço, cara, conteúdo... Elas se encarnam, assumem forma, tem silhueta, e são, obrigatoriamente, públicas: ninguém consegue fazer ou deixar de fazer alguma coisa que não interfira na vida de outro(s). O mundo do faz-de-conta pode e deve nos inspirar e ensinar, mas nunca tomará o lugar da crueza do mundo real, daquilo que chamamos "a vida como ela é".

O Evangelho é as duas coisas: faz-de-conta e realidade. Antes que me incompreendam, esclareço que por "faz-de-conta" aqui excluo a denotação de mentira, engodo ou algo semelhante. O faz-de-conta do Evangelho percebe-se na sempre presente esperança escatológica, que nos imprime a certeza de que o cordeiro vencerá o lobo, o bem vencerá o mal, que o galardão compensa as aflições, que a vida venceu a morte, que a Nova Jerusalém será instaurada e o Reino do Filho de Deus se estabelecerá vencendo todo o Mal. O faz-de-conta evangélico vê as mil cores dos arco-íris que assinalam as tantas alianças que Deus faz com o homem, nas quais Ele mesmo é sempre o fiador da contraparte, sente os cheiros do incenso suave que alcança as narinas do Criador e lhe provoca riso satisfeito, percorre o caminho celestial das inimagináveis figuras cheias de olhos e corpos metamorfoseados e combinados da riquíssima criação, ouve o som das muitas águas na catástrofe do caos urbano, articula palavras ininteligíveis provocadas pelo êxtase da invasão transcendente do Espírito... No mundo do faz-de-conta tornamo-nos crianças que dão o perfeito louvor, mergulhamos no líquido aminiótico do batismo nascendo nova criatura, assumimos a força que derrota gigantes, vestimo-nos de heróis que pelejam na luta cósmica ao lado dos anjos bons, e na adrenalina inexplicável que nos contagia a Palavra, nossas mãos transformam-se em ferramentas de pura magia com as quais o Alquimista espalhas suas curas e milagres. Quem penetra nesse mundo, não se importa nem mesmo em perder a sua vida, pois sabe que é assim que na verdade a ganha.

Mas o Evangelho não é só faz-de-conta. Ele é real, ou melhor, ele é encarnacional. Ele nos dói as entranhas e faz de todos nós parturientes na sofreguidão das contrações pelas vidas que precisam nascer de novo. Ele nos traz o incômodo do suor de quem se dispõe a arregaçar as mangas no engajamento das empreitadas que insistem em antecipar um pouco do céu para os esquecidos indigentes que Deus ama. Ele nos deixa roucos pelas tantas vezes que emprestamos nossas vozes aos gritos dos que são implacavelmente oprimidos pelo sistema iníquo que perpetua riqueza e poder nas mãos de uns poucos. Ele nos embaça os olhos com o choro que se compadece com o próximo na constatação de que a crueldade não respeita cor, idade, sexo ou qualquer outro extrato social. Ele nos dá calo nos pés de tanto caminharmos a segunda milha, e também provoca o incômodo frio por abrirmos mão da capa e da túnica. Ele nos deixa com nó na garganta por preferirmos sofrer o dano a ter que lutar por nossas razões individualizantes. Ele nos arrisca às palpitações cardíacas de percebermos que nossos inimigos se multiplicam e nossas forças se esvaem. Ele fragiliza nossa bexiga por nos lançar o desafio de confrontar os poderosos. Mas ele também nos enche de prazer quando percebemos que fomos úteis, apesar de nós mesmos. Nos faz sorrir quando ouvimos o depoimento de quem transpassou o mal com nossa ajuda. O Evangelho encarnacional nos torna sensíveis à beleza da Criação, críticos aguçados das construções malignas, frágeis como crianças diante da constante ameaça da queda, e também valorosos soldados que não se eximem da responsabilidade de estarmos sempre prontos a não nos envergonharmos dele. Na encarnação do Evangelho, como diria o poeta, somos comidos pela comida (carne) e bebidos pela bebida (sangue).

No Evangelho, o mundo do faz-de-conta não abre mão da vida-como-ela-é. Ambos são imprescindíveis um ao outro, irmãos siameses. Quem quer viver sempre no faz-de-conta, descaracteriza o Evangelho em suas ações por achar que se possa separar o espiritual do material, como se o Cristo ressurreto fosse uma espécie de gasparzinho, e não Deus-Homem com corpo, pele, cheiro, cabelo, unha etc. Por outro lado, quem nega a veracidade do mundo do faz-de-conta, sempre recheia suas ações com o insoso jeito do fazer por obrigação ou por satisfação que se tem a dar aos outros, quando na verdade o fazer evangélico é, essencialmente, o desfrute do amor, o gozo extático, a beleza ingerida em doses homeopáticas da contemplação da Beleza Eterna.

Talvez esteja por aí uma das razões porque nós, evangélicos, nos deparamos com a constatação paradoxal da desproporcionalidade entre crescimento evangélico e transformação da sociedade. Talvez, teimosamente estejamos dissociando o nosso fantástico mundo do faz-de-conta da conseqüente responsabilidade da encarnação do amor, e por sermos assim, por insistirmos na escolha entre um ou outro ao invés de assumirmos ambos, nos lançamos ao escândalo da mídia ao invés do escândalo da cruz, ao discurso moralista ao invés do discurso profético, às querelas denominacionais ao invés do diálogo ecumênico fazedor de pontes, à interpretação demasiadamente alegórica e normativa dos textos bíblicos ao invés da compreensão holística e divino-humana da Revelação. E, enquanto o nosso Brasil agoniza diante de tanta violência, corrupção, injustiça etc., empinamos o nariz e dizemos: nós somos os bons, vocês (os não-evangélicos) dão sorte de nós existirmos. Quem pensa e fala assim não percebeu que o faz-de-conta no Evangelho é Deus mostrando como as coisas podem ser, e a encarnação, é Deus mostrando como as coisas devem ser.

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